Sobre a obrigação de não abdicar do direito à indignação
por Júlio Marques Mota
A Maria Irene Ramalho escreve um artigo que é um grito de uma intelectual de referência, um grito de mulher e de esposa perante a injustiça que se abateu sobre o casal.
Em reação a esse seu artigo, e sob a emoção que este artigo me provocou, escrevi uma espécie de carta aberta à Maria Irene Ramalho em que me procurei situar, como julgo ser meu hábito, no plano lógico. Ao dizer isto, recordo um dos meus alunos de referência, a quem terei dado 17 ou 18 valores em Economia Internacional, que me disse: gostei muito do que escreveste sobre o assunto, mas tenho uma pergunta a fazer-te: porque é que és só tu a tomar posição na Faculdade de Economia sobre o assunto? Não sei qual foi a resposta imediata, mas pensando bem tinha a minha opinião sobre o assunto e esta não era uma opinião agradável.
O Boaventura e a mulher estão na situação de aposentados, ou seja, deixaram de ser poder. Defendê-lo não dá dividendos, defendê-lo só pode acarretar custos relativamente à lógica de poder, e há uma carreira profissional a seguir, de gente a querer subir na escala dos rendimentos. Haverá ainda aqueles que dirão, isso não é comigo, não me interessa (acreditem eles na versão das acusantes ou na versão do Boaventura), que são externos a tudo o que é pessoalmente político, que constituem o alcatrão de que se irá fazer a autoestrada que nos levará, se os deixarmos, ao mundo da idiocracia. Mas para aqueles que só pensam nas compensações que se podem obter com tomada de posição, atacá-lo também não serve para o efeito, porque os fundamentos da prova do que dissessem assentariam no diz-que-diz e nada mais e, por isso, também esta argumentação de quem não é acusante é pura repetição já gasta do que foi dito e nunca comprovado. Torna-se incómoda, por isso, já não serve o sistema. Consequentemente, estar agora a atacá-lo para poder usufruir benesses do sistema deixa de ser rentável, a menos que se esteja num universo de wokismo e de feminismo. Não será por acaso que a acusante Isabella Gonçalves muda de flanco no seu ataque, como se mostrou: não é um ataque pessoal contra Boaventura, é um ataque em forma ao sistema, ao homem branco, ao patriarcado, que a este é suposto ser inerente. Dentro deste quadro ou mesmo fora dele, o melhor é então estar-se calado, e terá sido intencionalmente a opção de muita gente.
Depois há também o sentimento de wokismo que pode estar por detrás das jovens estudantes a viverem numa residência universitária, as autoras das pichagens, e aí os sentimentos gregários e talvez delirantes que são próprios de uma juventude underground compuseram a fogueira que alguém haveria mais tarde de acender para queimar uma figura de referência atual na paisagem intelectual portuguesa, que é o Boaventura de Sousa Santos. E há boas razões para sustentar o sentimento de que existe uma dominante de wokismo (comportamento de esquerda radical não convencional) nas acusações feitas sobre factos teoricamente ocorridos décadas antes e tão tardiamente revelados. Exemplo desse wokismo vemo-lo nós no texto de Isabella Gonçalves quando escreve:
“A relevância dos livros e da teoria de Boaventura para o pensamento progressista leva alguns e algumas a crer que ele seja um santo na terra. Mas, basta um pouco de convivência, para perceber a distância entre o que se fala e o que se faz, entre teoria e prática, escancarada em sua trajetória marcada por muitos privilégios, brancos e europeus, e por uma forma arrogante de se relacionar com quem desagrada da sua vontade imaculada, sobretudo quando essas pessoas estão subordinadas a ele por vínculos laborais ou acadêmicos. (…)
A exposição do ‘Caso Boaventura’ não se trata de vingança nem de destruir a imagem pública de alguém. A sequência de relações abusivas de poder narradas pelas denunciantes diz respeito não apenas ao professor, mas sobretudo à forma estrutural como o patriarcado se reproduz no espaço acadêmico.
Falar de extrativismo intelectual e assédio moral e sexual no contexto acadêmico significa debater duas dimensões estruturantes de uma universidade que precisa se reinventar para reduzir a distância abissal entre teoria e prática. Debates feministas importantes têm refletido como a academia deve se tornar emancipatória, intercultural e ecológica para as mulheres, em especial migrantes, indígenas, negras, LGBT+“. Fim de citação
Hoje li um artigo publicado pelo jornal americano The New Republic assinado por Logan McMillen e intitulado “How TikTok 2.0 Became a Weapon for ICE” (original aqui). A sua leitura deixou-me assustado, e aqui vos deixo um longo excerto que tive sempre presente quando escrevi o texto “Em jeito de carta aberta a Maria Irene Ramalho”, onde se diz:
“no TikTok, as ferramentas estão lá: ao alavancar shadow bans e moderação de conteúdo agressiva, o TikTok pode, se quiser, garantir que qualquer evidência visual de excessos do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) seja silenciada antes de chegar ao conhecimento público.
Quando o governo pode comprar o seu caminho para contornar a Constituição, o resultado é o que vimos em Portland: um agente do ICE a rotular uma cidadã como ‘terrorista’ por exercer os seus direitos garantidos pela Primeira Emenda. Se o Congresso permitir que essas brechas de dados privados permaneçam, o banco de dados do ICE poderá, e de forma imediata, incluir qualquer pessoa que se atreva a criticar a administração. E a filtragem de conteúdo garantirá que qualquer registo em vídeo do ICE violando as nossas liberdades civis permaneça invisível.
Quando isso acontecer, o Supremo Tribunal sob a Presidência de Roberts não precisará de esvaziar a Primeira e a Quarta Emendas da sua substância, o Supremo pode simplesmente esperar até que todos concordem com a política de privacidade.” [O SUBLINHADO É MEU]
“A deficiência na faculdade de discernir é realmente o que chamamos de estupidez, e não há remédio para isso.” Assim observou Kant, numa nota de rodapé peculiar na Crítica da Razão Pura. A “faculdade” à qual Kant se referia é a capacidade mental da qual, segundo a sua filosofia, dependem tanto o conhecimento como a moralidade: a capacidade de aplicar princípios gerais a casos particulares.
Kant argumentou que existem várias maneiras de evitar o exercício individual do raciocínio, como a conformidade ao dogma, permitindo que as pessoas escondam assim a sua estupidez. O mesmo tema aparece na sua conhecida definição de Iluminismo como “a saída do homem da sua menoridade auto-imposta”. E menoridade, por sua vez, “é a incapacidade de usar a própria capacidade de discernir sem a orientação de outro”.
Desde o começo deste século, o crescimento do não-senso foi acompanhado pela perda do senso comum. Em muitos aspetos, isso apresentou-se simplesmente como uma crescente estupidez. […] A estupidez no sentido kantiano tornou-se a enfermidade de todos, e, portanto, já não pode ser considerada como “sem remédio” [Fim de citação – o sublinhado é meu] e acrescento eu [JM], porque assim deixa de ser considerada doença, e transforma-se na nova normalidade.
Resistir a isso, quando disso se tem consciência, é um imperativo moral, é o que estou a fazer; resistir à degradação do ensino superior é também um imperativo moral, é também o que continuo a fazer.
Agora que estou a preparar uma série longa sobre o ensino, deparo-me com professores, alguns de alto gabarito, a reclamarem contra o estado da Idiocracia que se está a instalar nas Universidades de elite americanas, de gente que não sabe ver um filme até ao fim, de gente que não é capaz de ler um livro por inteiro, de gente que chega às Universidades de elite sem os conhecimentos básicos que deveriam ser adquiridos na escola primária e no secundário. A propósito de tudo isto, questiona-se Brian Conrad, professor de matemática em Stanford – e Stanford é uma das mais prestigiadas universidades americanas: “Quem é que vai confiar em alguém formado em engenharia aeronáutica que não sabe como resolver um problema sem que um computador lhe dê a resposta? A premissa de que as ideias fundamentais já não precisam de ser aprendidas é uma receita para a idiocracia.” Fim de citação [O sublinhado é meu]
Vejam-se os três sublinhados do presente texto e todos falam da mesma coisa – do mundo da Idiocracia que estamos massivamente a criar, um mundo em que o diz-que-diz, por efeito de repetição, se torna a verdade absoluta em que se passa a acreditar e quem assim não fizer será sempre encarado com alguma suspeição. Estamos a criar um mundo em que cada vez mais se é incapaz de pensar logicamente ou, alternativamente, em que se é capaz, mas que se recusa fazê-lo. Os custos dessa opção começam a ser elevados e expressam-se já, por exemplo, no que se passa no ensino superior ou, com mais evidência, na baixa qualidade a que temos assistido na classe política, seja ela portuguesa, francesa, americana ou outra.
E é por aqui que devia dar a resposta ao meu amigo de então, quando me perguntou: “porque é que és só tu a tomar posição?”. Dou-a agora de forma mais completa, e esta é então a resposta que lhe deveria ter dado na altura. Gritar contra a massificação na idiocracia, gritar pela obrigação de não se abdicar da capacidade de julgar, de discernir logicamente, seja de forma pontual, seja de forma estrutural, sendo claro que as posições pontuais são já tantas que se estão a transformar em estruturais, gritar contra os comportamentos que dessa idiocracia resultam, gritar contra as arbitrariedades que à conta dela se praticam, gritar, gritar, é hoje tanto um direito como um dever de cidadania, e foi nesta lógica que li o texto de Maria Irene Ramalho e é também nesse sentido que se insere o meu texto intitulado “Em jeito de carta aberta”.
Na verdade, o que se fez e estamos a fazer é seguir a sugestão de Stéphane Hessel, de não abdicar do direito à indignação, e o que se passou agora com a morte de Paula Meneses é desse ponto de vista inacreditável, mesmo na lógica do cancelamento, mostrando-se as águas nada claras em que muitos dos autores do cancelamento navegam. Com efeito, ainda no calor da morte, o Boaventura de Sousa Santos escreve um texto em homenagem a Paula Meneses, a colega do infortúnio, a colega em muitas tarefas científicas, a amiga de longa data, e o destino do artigo foi ter sido publicado em A Viagem dos Argonautas depois de ter sido recusado pelo jornal Público. Mas o mesmo jornal que cancela o artigo de Boaventura de Sousa Santos sobre Paula Meneses, em boa hora publica o artigo de Elísio Macamo, intitulado “Habitar a história não é apenas lembrá-la. É criar instituições capazes de reconhecer quem a pensa criticamente”.
Uma dualidade de critérios no jornal Público. O artigo de Boaventura de Sousa Santos é recusado, e dada a qualidade do mesmo, só há uma explicação possível para uma tal recusa: há ordem superior para não publicar nada que tenha a assinatura de Boaventura de Sousa Santos. Mas se assim é, trata-se de ordem vinda de onde, a que nível se pode utilizar a palavra SUPERIOR? Responda quem souber. E um tipo de contradição paralela, equivalente, encontramo-la no artigo de pesar do CES pela morte de Paula Meneses, pois que se passa da situação de silenciada, de vilipendiada, a cientista social de grande relevância! Tem razão a Maria Irene Ramalho quando afirma: Alguém tem de retratar-se e de pedir desculpa.
E perante tudo isto não se há-de gritar de indignação?

